Acho interessante quando escuto ou leio comentários do tipo “antigamente, não existia esta putaria toda” referindo-se às artes das sexualidades ou as sexualidades nas artes. Como se as putarias artísticas que estamos presenciando em exposições atuais, principalmente, em espaços não hegemônicos fosse uma característica da nossa contemporaneidade. Acredito que vivenciando hoje é uma maior presença de obras desviantes que trazem a nossa sexualidade de uma forma mais pungente, mas afirmar que seja algo do tempo atual é uma grande falácia. A nudez, a sexualidade ou o corpo já estão presentes em nossas construções artísticas desde nossas primeiras expressões humanas, nas pinturas deixadas nas paredes de cavernas. Ao redor do mundo, vários são os exemplos de desenhos deixados em cavernas representando cenas diversas como parte do cotidiano daqueles povos como a caça, a dança e a sexualidade.
No sítio arqueológico da Serra da Capivara, no Estado do Piauí (Brasil), juntamente com outros registros há o que poderíamos entender, pelas nossas chaves de leituras atuais, como práticas da sexualidade. De forma que a narrativa sexual no campo das artes não poderia ser considerada como uma temática dos tempos recentes da história da arte, mas que ao longo dos tempos, ela tem sido apresentada sobre diferentes vertentes, possibilidades, com maior ou menor grau de explicitude. A própria intenção é uma variável constante. A intenção daquelas pessoas que pintaram nas cavernas. A intenção do artista que tatua o próprio cu. A intenção do artista que pinta uma buceta chamando-a de origem do mundo. A intenção do artista que se coloca desnudo em uma rua pública de lojas de grife na maior cidade do Brasil. Ou ainda a intenção do artista japonês Kitagawa Utaro e sua obra intitulada Utamakura que me inspirou na realização do conjunto fotográfico Utasekkusu que apresentei inicialmente no perfil do Dr. Red no Bluesky e que republico aqui. São as intenções as variáveis constantes. Não a sexualidade, a nudez ou o corpo.
Sobre Utamakura
“Utamakura” (“poema[s] do travesseiro”), do artista japonês Kitagawa Utamaro (ca.1754-1806), é o título de um livro ilustrado com 12 gravuras com imagens sexualmente explícitas, publicado em 1788. Utamaro foi um dos mais proeminentes representantes do movimento artístico Ukiyo-e (“imagens do mundo flutuante”), no período Edo (1605 a 1868). As obras deste período, principalmente, gravuras e pinturas, traziam narrativas do cotidiano das pessoas ditas comuns como um contraponto à escola Kanō, como afirma a doutora em História da Arte Priscila Sacchettin: Utamaro, assim como outros artistas de sua época, “representavam a vanguarda de uma arte que inovava ao olhar o Japão pela lente do popular e do cotidiano, diferente da tradicional escola Kanō, que dominava a arte japonesa havia séculos e dava preferência a paisagens míticas e à representação da aristocracia, misturando influências da pintura chinesa e da filosofia Zen”.[1]
As obras de Utamaro retratavam os bordéis e a prostituição da região de Yoshiwara, no distrito de Edo (atual Tóquio). No caso da obra “Utamakura”, de acordo com o The British Museum, “o título ‘Utamakura’, além de sugerir as intimidades do quarto, também é um termo usado para descrever certos nomes de lugares usados na literatura clássica que estão repletos de associações poéticas. Usado nesse sentido, ‘utamakura’ é um termo intimamente ligado a ‘makura-kotoba’, epítetos poéticos de estoque que precedem esses nomes de lugares”. (livre tradução).[2]
Assim, faço uso desta associação do travesseiro com a intimidade do quarto como um espaço de prazer e poesia para pensar a série fotográfica Utasekkusu, com a nossa prática da sexualidade como espaço poético, não como uma dualidade pornográfico versus erótico, mas como representações de nossas práticas da sexualidade como formas de expressões artísticas de nossos cotidianos, tais como podemos absorver das obras de Utamaro ou das pinturas das cavernas.
[1] Disponível em https://correio.ims.com.br/cartas-na-pintura-15-por-priscila-sacchettin/.
[2] [The title "Utamakura" (Poem of the Pillow), as well as being suggestive of intimacies of the bedroom, is also a term used to describe certain place-names used in classical literature which are full of poetic associations. Used in this sense, ‘utamakura’ is a term closely linked to ‘makura-kotoba’, stock poetic epithets that precede these place-names]. Disponível em https://web.archive.org/web/20170213001306/http://www.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_details.aspx?objectId=781497&partId=1&searchText=utamaro+pillow&page=1
Sobre Utasekkusu
Em “Utasekkusu”(“poema[s] do sexo”) apresento, no lugar das gravuras de Utamaro ou das pinturas nas cavernas, fotografias: 12 imagens com os putos SmokerOtter e Free Wolf. Realizadas na Ocupação MDR moradia diversidade resistência, localizada no que outrora fora uma das regiões mais nobres da cidade de São Paulo, na Rua do Triunfo, na região da Luz. É lá onde habitam corpas que foram esquecidas pelas políticas públicas, pelos governos, pela sociedade, onde habitam corpos que vendem o prazer em troca de comida ou mais um bolado ou uma pedra, é lá onde os putos se fazem desejantes e desejáveis. Em meio às ruínas do que já fora um dos hotéis mais chiques da cidade, eles se entregam e exercem um dos nosso mais básicos e cotidianos instintos: a sexualidade.
"Transformar o cotidiano em eterno" (Hélio Oiticica)
"Tranformar o cotidiano em gozo" (Chris, The Red)
Utasekkusu
por Chris, The Red
com Free Wolf & SmokerOtter
(fotografia, São Paulo/SP, 2025)
Ocupação MDR moradia diversidade resistência